Divórcio: um furacão na infância

Haverá mudança por decreto?
17/09/2020
O que os pais precisam saber sobre segurança na escola em uma emergência ou crise
08/04/2023

O divórcio quase sempre é um período difícil e amargo na vida das pessoas e seus impactos podem perdurar a vida inteira se não forem tratados a tempo. Quando adultos com filhos decidem entrar em litígio raramente param para pensar de forma aprofundada o quanto isso pode passar como um furacão na vida dos filhos. A família é o primeiro lugar de convívio social e emocional de uma criança, onde ela pode ter trocas de pensamentos, ideias, raciocínio, sentimentos e emoções que dão a ela a sensação de ser, de ser importante. Quando tudo isso desmorona na sua frente por vontade de terceiros traz algumas dúvidas sobre esse tal ser, que ela ainda não teve contato. A angústia de olhar para si e não se perceber mais pertencente a uma dinâmica de afeto organizada traz insegurança, medo e sentimentos de inadequação. As consequências emocionais e sociais evoluem de acordo com a idade, ou o estágio onde esse indivíduo se encontra. Alerto que o divórcio não é um botão de “vou fazer meus filhos sofrerem”, mas é um furacão passando por um lugar. É preciso proteger aquilo de mais importante no momento, essa proteção pode estar em alinhar prioridades e tirar da frente do furacão tudo aquilo que deve permanecer como estrutura de vida. Quando um furacão passa por um lugar num desses países as pessoas não salvam uma televisão em primeiro lugar. Costumam levar dali o que há de mais valioso, que são as próprias pessoas.

Então por que raios muitas vezes vemos em divórcios a preocupação primária ser um bem material e não a saúde e o bem-estar do que estão envolvidos, por vontade própria ou por circunstância naquele momento? Apontar o dedo e se importar mais com o carro na garagem do que com a presença dos filhos numa briga desenfreada, cheia de gritos e ofensas trará consequências maiores, e pior, invisíveis na vida dessas pessoas do que se pode imaginar. Em alguns casos chegando a ser tão graves que dinheiro nenhum poderá ajudar ou cessar essas consequências para a subjetividade dessa pessoa. Principalmente se está em período de formação da sua personalidade e estrutura emocional. Não é possível brincar de quem pode mais quando o castigo é direcionado a quem nem pediu para estar ali. É como se fosse um cabo-de-guerra, onde um puxa de um lado, o outro puxa de outro, e quem está no meio se segura para não cair. Nesse ato, as mãos podem arder tamanho o esforço de se segurar na corda, e quando se consegue mais suportar a criança solta, cai no olho do furacão e é levada e misturada aos sentimentos de angústia, inadequação, ansiedade, desespero e impotência, e essa última pode ser a causadora em vários casos de automutilação, desequilíbrios de humor e até mesmo no desenvolvimento de transtornos. Não se pode pensar que não haverá consequência nenhuma, mas é possível sim diminuir o seu impacto e alterar o fluxo da angústia e da ansiedade.

De forma sucinta, cada contexto vai exigir uma solução diferente, mas algumas dicas podem ajudar a entender melhor o que fazer: não coloque a criança em uma briga, seja direta ou indiretamente, alienação parental tem sido uma dessas armadilhas de rancor e remorso que os pais estão criando para seus filhos, evite ao máximo falar do parceiro (a) na frente das crianças, não é saudável e pode desestruturar a imagem de suporte emocional (cada um à sua forma) que ambos representam na vida da criança. Outra dica é explicar para as crianças que as coisas muitas vezes chegam ao fim, e fecham ciclos, mas que de forma nenhuma a relação entre elas e a figura paterna e materna precisa ser afetada por isso. Desta forma, a criança pode entender ao seu modo e ao que sua idade e estágio infantojuvenil permite, que na vida existem relacionamentos e sentimentos, como duas coisas separadas que podem andar juntas para sempre ou não. Última dica é tomar a decisão de forma lúcida e definitiva, isso vai demonstrar segurança de que ambos sabem o que estão fazendo e os filhos serão acolhidos dentro dessa segurança. A insegurança talvez seja um dos piores sentimentos que uma criança possa sentir, pois, sem segurança não se dá nem um passo sequer. Crianças e adolescentes estão constantemente em estágio de ‘exploração’ no que representa sua convivência social e sua interação emocional, confiança, autovalor e autoestima provêm de um mesmo lugar, da segurança que se tem para dar um passo a mais seja na direção que for.

Psicólogo Paulo Eduardo Tavares – CRP 04/65371

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Iniciar conversa
1
Podemos ajudar?
Bem-vindo(a) ao Filhos Online!
Como podemos lhe ajudar?